O veio embarcou ontem. E hoje eu estou de preto, não que isso seja grande mudança.
Vou explicar.
Meu querido avô faleceu ontem de manhã, um dia depois do seu aniversário de 80 anos, e deixando saudade para todos, inclusive algumas meninas.
Percebo agora que não chorei em nenhum momento do velório, e que não verdade não sofri como o resto da família, e que só agora choro um pouco. Pensei que eu não me importava, mas eu não queria é que o velho me visse chorando.
Meu avô era militar, no entanto, não chegava a ser turrão ou ranzinza como se pinta por aí, e parecia até mais novo que seus próprios filhos. Praticava capoeira e andava na praia todos os dias de manhã, era um atleta, jovem, e galanteador; depois que minha avó morrera, ele voltou à velha vida de pegar gatinhas.
Não, sério, gatinhas mesmo. Passei vários apertos com namoradas por causa de meu avô. Eu, que aprendera com ele as táticas de guerrilha do amor, observando apenas, ou através de celebres frases como: “- Meu filho, vai lá, quem não dá chute não faz gol.” ou “- Olha sempre a cara da sogra, sempre, um dia você vai ma agradecer.”, e tinha um pai que não tinha tempo de me ensinar essas coisas, passei boa parte de minha juventude tentando superar meu avô, mas nunca consegui: as namoradas dele sempre eram mais bonitas ou mais novas que as minhas.
Seu Irenio era uma grande figura, só os filhos dele que não percebiam o tesouro que tinham na mão. Ele havia vivido muita coisa, mas muita mesmo, e pedir um conselho para ele era como consultar um oráculo, ou como ele dizia, era batata, o velho não errava nenhum palpite, tinha sempre um sorriso no rosto, e uma nota de dez reais no bolso. Essas notas de dez reais era uma mágica que ele tinha aprendido. Dizia ele que só existe um tipo de problema que as pessoas enfrentam: falta de investimento; ou elas precisam do tempo de outra pessoa pra falar sobre seus problemas, ou de dinheiro de outras pessoas para resolver os problemas que não querem ou não podem contar. Então tempo e paciência ele tinha demais, e se você contasse os problemas a ele, de duas uma, ou ele fazia o problema parecer pequeno ou contava uma coisa engraçada sobre o problema e você que havia chegado triste e cabisbaixo, saia sorrindo. Pros outros problemas ele tinha a nota de dez reais no bolso.
Meus tios tentaram por anos podar o pobre velho, tentavam de toda maneira fazer seu Irenio se mudar para casa de algum deles, para que pudessem cuidar dele, e proibi-lo de fazer as coisas que ele gostava e que o faziam feliz, inclusive de continuar pegando meninas de 21 anos, mas o velho era sabido e não deixava ser pego. Passou a vida morando na beira da praia, vivendo a vida em marcha lenta, acordando de madrugada para aproveitar cada minuto, e andando sempre pra continua evoluindo; com seus oitenta anos, ele fazia curso de inglês, violão, dava aula de capoeira, e cantava. Era bonito de se ver o velho cantando, cantava as meninas que era uma maravilha.
Foi internado na mesma marcha lenta, andando por conta própria até a UTI e dispensando a cadeira de rodas. E é nessa parte que eu choro, de felicidade, porque meu pai que parece ser tão obtuso emocionalmente na maioria das vezes, foi para o lado dele no leito da UTI, e enquanto seus irmãos cuidavam da parte financeira da internação, ele conversou com o velho. Falou que o amava, e que ele deveria ficar tranqüilo que tudo ia ficar bem. Pediu perdão pelos erros que havia cometido, e disse pra meu avô imaginar uma praia, Itapoã, que era a praia que Seu Irenio amava em Salvador, pediu para seu pai imaginar que andava pela praia como sempre fizera e que a imaginasse mais bela como nunca a viu, que andasse por ela até o final, e admirasse cada pedra e cada grão de areia como nunca havia feito. E meu avô morreu sorrindo, dormindo, imaginando a praia que amou.
Todo mundo soube que ele morreu sorrindo, antes mesmo que meu pai contasse a história, pois no velório, todo mundo via um lindo sorriso em seu rosto. Acho que foi por isso que choro só agora e não tive coragem de chorar na frente dele. Eu não queria arriscar desfazer aquele sorriso.
Vou sentir falta de Seu Irenio. E hoje já deve estar marcada uma festa na nuvenzinha dele. Amém.